A caminho do romance: o Lazarillo de Tormes e as Obras do diabinho da mão furada

 

 

Paulo de Tarso Cabrini Júnior (CESPE/Fapesp)[1]

 

 

            Não é raro que a proposição de um assunto, tomada como uma estrada, se mostre menos interessante do que alguns atalhos que se possam encontrar no caminho. Assim aconteceu com esta comunicação: o estudo das duas obras aludidas no título acabou por ressaltar fascinantes aspectos marginais, e aquele objeto inicial se viu irremediavelmente reduzido a apontamentos contrastivos que levantavam mesmas perguntas. O paralelo entre o Lazarillo de Tormes e as Obras do diabinho da mão furada tinha como objetivo sublinhar influências da picaresca espanhola no texto atribuído a Antonio José da Silva e, a partir desse estudo, seguir o caminho obscuro de um suposto anti-herói português em direção ao romance realista. O estudo da influência picaresca em Portugal, todavia, nos leva a questões mais urgentes em torno da apropriação do gênero pela literatura daquele país, e a uma pergunta insistente, para a qual se procura resposta: onde estará o pícaro português?

            Trata-se de um questionamento bastante compreensível e perturbador, se nos lembrarmos que os séculos XVI e XVII espanhóis vivem uma epidemia de vagabundos autobiografados, que sua descendência alcança as ruas de Londres, no século XVIII, e que Portugal, um país vizinho, com uma forte influência cultural castelhana, por tanto tempo um país bilíngüe, não vê perambular pelos livros um filho marginal e bastardo. Se acreditarmos numa história cultural idêntica entre Portugal e Espanha, podemos ficar abismados com a constatação. No entanto, para localizarmos o pícaro português - que existe de fato - basta que compreendamos uma diferença histórica fundamental entre os dois reinos.

            Um simples exame da prosa lusitana feita entre os séculos XVI e XVIII revela uma situação bastante constrangedora para quem queira justificá-la aos olhos de hoje. Afinal, pouco interessantes se mostram livros como os Infortúnios trágicos da constante Florinda, ou o Conselheiro fiel com máximas espirituais. Sabemos que não constituem um fenômeno português, esses compêndios de educação moral disfarçados de interessantes novelas, que Antonio Candido, com propriedade, chamou “traquitanas de mau trânsito”[2]. Mas o fato de haver nascido, na Espanha da Contra-Reforma, uma tradição literária anti-heróica, satírica

e alheia a torneios de alta filosofia, deixa Portugal na solitária posição de país cuja literatura não tem exemplos expressos de diversidade ou de desapego ideológicos.

            Tudo isso é dito de maneira bastante tosca para acentuar uma conquista da máquina inquisitorial portuguesa. A atuação do Santo Ofício é tão fundamental quanto subestimada pela história literária portuguesa, numa teimosia incompreensível, dado o esclarecimento que oferece àqueles que pretendem estudar a prosa anterior ao século XIX. O controle ideológico, somado a uma limpeza cultural constante, é precisamente o que distingue a tradição literária portuguesa da espanhola.

            Não será tão espantoso o fato de a novela picaresca ter nascido na Espanha da Contra-Reforma, se tivermos em mente o que caracterizou os reinados de Carlos V e Filipe II: o descaso com os assuntos internos do reino. É preciso sublinhar que descaso e repressão são coisas inegavelmente diferentes. O fato de se terem publicado novelas picarescas, mesmo anonimamente, é um claro sinal de que não havia em Espanha um controle tão rígido das oficinas de impressão, como havia em Portugal. Não temos notícia, também, de que a Espanha controlava seus portos, vasculhando os navios estrangeiros à procura de obras heréticas, como acontecia no reino vizinho. E o mais importante: não houve um esforço tão grande, por parte do Estado espanhol, de unificar seus diversos povos à força, eliminando diferenças culturais e religiosas.

Em Portugal, a limpeza cultural não se limitou a uma ordem de expulsão apenas, nem a perseguições quase esporádicas aos cristãos-novos, mas foi minuciosamente aplicada, e com mão de ferro, por mais de duzentos anos. A rigor, não houve pouco caso por parte do reino português, no que se refere à política interna: seu esforço por submeter diferentes povos, e por eliminar culturas, foi decididamente maior e mais duradouro.

É sabido que, desde o batismo forçado de 1497, não haviam mais judeus em Portugal, pelo menos oficialmente. O que poderia ser apenas um decreto sem continuidade foi cumprido de maneira eficaz pela Inquisição portuguesa, num esforço em submeter todo o povo cristão e português a uma única lei, religiosa e civil ao mesmo tempo. Nesse contexto é difícil falarmos em marginais. Para que haja um marginal é preciso mais que miséria material; é necessário o sentimento de descaso, o mesmo que dá ao pícaro espanhol a liberdade de expressão. Em Portugal, ser um marginal completo seria morte certa. Podemos encontrar personagens pobres, exemplos de virtude e de fé na mendicância franciscana; mas nunca nos deparamos com o pragmatismo do desamparado.

A busca pelo pícaro português não pode ser empreendida sem o auxílio da obra fundamental de João Palma-Ferreira[3]. Nela, o autor nos oferece razões para essa busca,

baseado na tradição satírica das cantigas de escárnio, no teatro de Gil Vicente e na longa influência cultural castelhana.

            Um dos problemas deste estudo, porém, está no critério adotado para a procura. Palma-Ferreira, ao que parece, retira da picaresca clássica elementos com os quais estabelece um padrão do gênero, e pelo qual descarta as obras que não lhe correspondem. Trata-se de um procedimento singular para se estudar um gênero notavelmente transgressor de normas. Dizer, por exemplo, que a viagem por terras estrangeiras não é atitude do pícaro faz supor uma limitação do drama picaresco. Além disso, nota-se que o autor cobra da literatura portuguesa um pícaro que seja exatamente como o espanhol, o que seria bastante improvável, pelos motivos históricos já aludidos.

            Ao dizer que o pícaro “parece nunca ter correspondido a uma faceta característica da mentalidade portuguesa”[4], o autor parece colocar um ponto final em nossa busca, ou seja, não há uma novela portuguesa que corresponda aos pressupostos picarescos. Há razões óbvias para concordar com essa assertiva, mas há, também, razões de sobra para investigarmos a peculiaridade desta novelística pseudopicaresca, pela singularidade portuguesa que salta aos olhos e que é expressa no problema da fé.

            Há uma espécie de pícaro português. Aliás, não uma, mas duas, que correspondem aos dois estratos da sociedade aparentemente unidos: o cristão-velho e o cristão-novo. Por um lado, temos novelas que se apropriam da novidade formal da picaresca para veicular o mesmo conteúdo didático católico. Por outro lado, há narrativas que manifestam, igualmente, um aproveitamento de recursos trazidos por aquele gênero espanhol e uma identificação, expressa em entrelinhas, com aquele seu ceticismo não-dogmático.

            Das obras que João Palma-Ferreira cita como influenciadas pela picaresca, três são caracterizadas pelo que podemos chamar o pícaro beato. A primeira dessas novelas é a Tercera parte del Guzmán de Alfarache, do Marquês de Montebelo, escrita na Espanha, em castelhano, provavelmente no final do século XVI. Guzmán, que fora deixado na galé, em fase de arrependimento, é solto por ordem do rei, após pagar trezentos escudos de ouro ao capitão do barco. A partir daí, tem início uma série de aventuras em terras portuguesas, até que o personagem, ao final, se torna eremita. Apesar da autobiografia e do pessimismo característicos, o Guzmán do Marquês tende a realizar obras de reabilitação, pouco age como pícaro, preferindo ouvir as aventuras dos companheiros, e o ceticismo antes impresso por Mateo Alemán se vê transformado em moralismo de proveito e exemplo

            A segunda obra é El siglo pitagórico y vida de D. Gregório Gadaña, de Antonio Henriques Gomes, escrito e publicado na França, em 1644. O livro procura satirizar a

tendência esotérica disseminada no século XVII, particularmente no que se refere à filosofia de Pitágoras, tornada popular em seus pretensos aspectos metafísicos. Henriques Gomes centra seu livro no tema da metempsicose (ou transmigração) que se inscreve naquele salvacionismo e arrependimento que timbraram seu século. Passado na Espanha, o

livro narra a vida de D. Gregório, que sofre quatorze transmigrações, sendo na pele de um ambicioso, de uma dama, de um miserável, de um doutor, até a última transmigração, na pele de um virtuoso.            Uma série de procedimentos acabam por tornar o livro mais uma preocupação moralizante do que uma novela picaresca, e mesmo a linguagem, pouco agressiva e espontânea, resvala na retórica conceptista de elegância barroca.

            As Novelas exemplares, de Gaspar Pires Rebello, foram originariamente editadas em Lisboa em 1650, e ganharam duas reedições posteriores. Neste volume está a novela portuguesa mais fiel ao espírito picaresco, O desgraçado amante Peralvilho, inspirado diretamente no Lazarillo de Tormes. As desgraças de Peralvilho se passam em território espanhol, e quase todas são causadas por seu sentimentalismo acentuado, até que, experimentado, se afasta dos tormentos de amor. Malgrado a linguagem clara, simples e vivaz, e a despreocupação com a doutrina, o Peralvilho acaba por evitar o essencial da novela picaresca, que é (para usar uma expressão anacrônica) a problemática existencial.

            Não parece errado dizer que a prosa portuguesa, muito mais do que a espanhola,  apontava, desde o século XVI, para uma tradição ideológica de manutenção do poder feudal. A tendência para a heroicização acabou por minar a função denunciadora do anti-herói, e a crítica social (se há) é condicionada pelo paradigma religioso. A maior diferença entre os anti-heróis ibéricos está no caráter de sua marginalidade: o espanhol sabe que pode se identificar com a sociedade que o ignora, se tiver engenho para conseguir a honra. Elimina, com sua visão pragmática, o aparente abismo entre si e o fidalgo, reconhece a  essência mútua, e daí nasce seu profundo humanismo. Essa visão é precisamente o que falta ao marginal português para que seja um anti-herói de fato. Em geral, o personagem pobre e andrajoso da prosa portuguesa é um exemplo de sabedoria, é um marginal da sociedade corrompida, para a qual aponta o dedo e sintetiza, numa linguagem e forma nem sempre mais populares, toda a catequese que já se havia representado na literatura erudita.

            Mas nem só de pícaros beatos é formada a literatura portuguesa. Há também os beatos pícaros, protagonistas de obras curiosamente escritas por cristãos-novos. Se observamos, acima, de que forma a estrutura picaresca é adotada para tornar menos penoso o trabalho de ler a doutrina cristã, temos agora duas obras que tomam para si modelos tradicionais de literatura beata, mesclada a elementos picarescos, para veicular,

 

disfarçadamente, uma visão cética da vida, desamparada de qualquer ideologia, própria de um indivíduo sem ligação com o Estado.

            Talvez seja exagero apontar o cronotopo da viagem como influência picaresca da Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto (1614), uma vez que já na época eram populares a literatura de viagens e as relações de naufrágio. O relato autobiográfico, no entanto, é sempre algo incomum na prosa portuguesa, ainda mais quando dele não brota humor, mas sobriedade, de modo que se torna maior a ambigüidade entre a verdade e a pura ficção. O que se destaca na Peregrinação é a sua prosa ácida e violenta, a visão amargurada, e uma preocupação perturbadora do autor em denunciar a crueldade da expansão ultramarina portuguesa. Nesta narrativa, os portugueses não são heróis camonianos, mas aves de rapina. Quanto ao protagonista, não é de se desprezar a percepção de si enquanto estrangeiro, seja entre os compatriotas ou entre os nativos, nem é de se ignorar o fato deste protagonista não ser um modelo de virtude, senão um homem de visão. O que poderia ser mais um relato de aventuras, torna-se, pela boca de um cristão-novo português, um relato de desventuras pessoais, e um testemunho, verídico ou ficcional, de uma permanente insegurança. Enfim, a Peregrinação, se não pertence ao gênero picaresco por questões de forma, compartilha com ele o ceticismo.

            Um outro exemplo de aproveitamento desse espírito cético da picaresca está nas Obras do diabinho da mão furada, ou O fradinho da mão furada, cujo manuscrito anônimo é atribuído com propriedade a Antonio José da Silva, autor teatral de sucesso entre a gente miúda do Bairro Alto de Lisboa, nascido no Rio de Janeiro em 1705 e executado em auto-de-fé em 1739. Neste livro, a forma picaresca se mistura aos contos tradicionais de moralidades, e o enredo caminha de tal forma que muitos autores não hesitaram em considerá-la apenas mais uma novela católica. O que se pode dizer é que poucos tiveram o trabalho de se debruçar no texto e desentranhar-lhe o sentido, como fizeram Bernard Emery, Vilma Areas e Maria Theresa Abelha Alves.

            Contudo, observada de perto, a história do soldado André Peralta, que, em tempos de Filipe II, se retira da milícia de Flandres após vinte anos de serviço, revela uma profunda discussão das noções de Bem e de Mal num mundo posto em xeque. Retornando de uma guerra perdida para o infiel protestante, sob o peso das aspirações heróicas fracassadas, o soldado caminha maltrapilho de volta a Lisboa, que o autor se refere como “pátria comum de estrangeiros, madrasta de naturais e protetora de aventurosos”[5]. Seu encontro com o Diabinho da Mão Furada, figura demoníaca curiosamente vestida de frade, é o pretexto para que entrem em combate a razão humana e a fé tradicional.

            Os estudos apontam para a influência de obras consideradas picarescas, como El diablo Cojuelo, de Guevara, Los sueños, de Quevedo, e La ilustre fregona, de Cervantes. No geral, o livro toma do gênero uma série de procedimentos formais, incluindo o realismo com que caracteriza a terra e o povo do interior de Portugal. Um atenção especial, porém, deve ser dada à paródia.

            A tradição popular, confirmada pela Inquisição, atribuía aos judeus uma série de blasfêmias que se baseavam na paródia do ritual católico. O livro, por sua vez, trata de parodiar essas mesmas crenças antijudaicas, nos episódios em que o Diabinho faz ver a Peralta que as culpas atribuídas aos judeus são comuns a todos os homens. O personagem demoníaco denuncia ao soldado a essência por trás da aparência: as beatas, à noite, se viram em bruxas que sugam o sangue dos recém-nascidos; o mendigo à porta da igreja é um falso coxo; as noviças do convento usam de simpatias, astrologia e necromancia, e a dama virtuosa, que serve na estalagem, não passa de uma reles prostituta.

            As Obras do diabinho da mão furada criticam duramente, e de modo disfarçado, os costumes e a hipocrisia da sociedade corrompida. Seria fácil associarmos esse caráter da obra à literatura clerical, uma vez que se trata de sua matéria preferida. Para evitar esse erro é preciso procurar no livro o paradigma de conduta que salva o homem; é preciso identificar a doutrina em que se apoiam os protagonistas, ou o autor. Procuramos de fato, e ele não se mostra. Não há. Não se lê, no texto, coisa alguma que semelhe uma via de escape da corrupção e do engano. Enfim, as Obras do diabinho da mão furada, ao denunciar a sociedade supersticiosa e desonesta,são apenas pessimismo e ótica não-dogmática. O Diabinho não faz mais que revelar ao soldado o reino perdido ao qual pertence e pelo qual lutou. Nem mesmo o final do livro, utilizado para justificar a moralidade da obra, escapa a um exame acurado, pois o soldado Peralta interna-se no convento de Xabregas numa clara manifestação de desespero diante da insegurança.

            Das muitas referências à Inquisição, imprimo aquela mais veemente, do momento em que o soldado procura recusar a panela de dinheiro que o Diabinho lhe oferece:

 

            “... A mim não me enganam palavras. A verdadeira felicidade não consiste em ter tudo, senão em querer nada; e sua Demonência bem sabe que neste mundo o fazer o mal e o fazer o bem tem igual perigo, porque nunca falta contradição a quem bem obra, nem quem é mau tem boa correspondência.”[6]

 

 

            Através deste trabalho, tentamos chamar a atenção para questões inexplicavelmente evitadas no estudo da literatura portuguesa. Não parece razoável ignorar o drama intenso vivido pela sociedade portuguesa durante a ação inquisitorial, nem é atitude inteligente atribuir à falta de talento a estagnação e marasmo da ficção anterior ao século XIX. A relevância da questão talvez não seja suficiente para promover uma reavaliação positiva de cada novela em particular, mas certamente nos leva a estudar a produção novelística como um todo sob o ponto de vista de um drama social. Sob essa ótica, torna-se importante, ao menos, compreender a discussão humana proposta pelos autores cristãos-novos, que, malgrado a censura e a repressão, deixam entrever uma situação kafkiana de seus escritos aparentemente inofensivos. Comparada à espanhola, a novela picaresca portuguesa falha em aspectos essenciais do gênero. No entanto, estamos falando de manifestações tímidas de realismo que devem ser levadas em conta em sua tentativa de problematizar, não somente um momento histórico, mas a condição humana.

 

 

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

ALVES, Maria Theresa Abelha. A dialética da camuflagem nas Obras do diabinho da mão

furada. Lisboa : Imprensa Nacional, 1983.

 

EMERY, Bernard. “O homem e o diabo nas Obras do diabinho da mão furada”.

Colóquio/Letras. Lisboa : 39 : 18-23, Jan. 1977.

 

SIMÕES, João Gaspar. História do romance português, v. I. Lisboa : Cor, 1967.

 

 

 

 



[1] Mestrando em Literaturas de Língua Portuguesa pela Unesp de Assis (SP), bolsista da Fapesp, ex-professor do Centro de Ensino Superior de Presidente Epitácio (SP)

 

[2] CANDIDO, Antonio. “Timidez no romance”. In: _____. A educação pela noite. SP : Ática, 1987.

[3] PALMA-Ferreira, João. Do pícaro na literatura portuguesa. Lisboa : ICLP, 1981.

[4] idem, p. 91.

[5] SILVA, Antonio José da. O fradinho da mão furada. Lisboa : Arcádia, 1973, p. 19.

[6] Idem, p. 25.